Encontro da Hotelaria desbrava fronteiras e chega a Olímpia (SP)

Encontro da Hotelaria desbrava fronteiras e chega a Olímpia (SP) (Foto: Divulgação)

O ENCONTRO DA HOTELARIA, um dos mais importantes eventos da hotelaria brasileira, promovido pela Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação – FBHA, nesta edição conta com o patrocínio da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo – CNC, e tem o apoio do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Região de São José do Rio Preto -SINHORES, da Associação Olimpiense de Hotéis, Pousadas, Bares e Restaurantes – AOHPBR, da Associação Comercial e Industrial de Olímpia – ACIO e da Prefeitura da Estância Turística de Olímpia.

Depois de percorrer dezesseis cidades mineiras: Belo Horizonte, Caxambu, Poços de Caldas, Juiz de Fora, Ouro Preto, Montes Claros, Governador Valadares, Capitólio, Uberlândia, Monte Verde, Confins-BH Airport, Tiradentes, Brumadinho, Pouso Alegre, Sete Lagoas e Araxá, Olímpia foi escolhida para receber 24ª edição do evento. A primeira no Estado de São Paulo.

24° Encontro da Hotelaria e Gastronomia

O 24° ENCONTRO DA HOTELARIA E GASTRONOMIA está previsto para acontecer de 26 a 28 de junho, na Arena Olímpia Shows & Eventos. Para Marcos Valério Rocha, coordenador do escritório regional FBHA em Minas Gerais, idealizador e organizador do evento, “realizar a vigésima quarta edição em Olímpia, sendo a primeira no Estado de São Paulo, é um grande desafio, pois São Paulo é o maior e mais dinâmico mercado hoteleiro do Brasil, sendo ao mesmo tempo o maior destino do turismo de negócios além de maior mercado emissor do país. Concentra a maioria das sedes das grandes redes de hotéis nacionais e internacionais atuantes no país. Detém o maior parque hoteleiro do Brasil, onde Olímpia ocupa um lugar de destaque”.

O evento tem como objetivos: analisar os cenários hoteleiros e turísticos, aprimorar a gestão, avaliar procedimentos operacionais e as tendências do mercado. Nesse evento, haverá a participação de profissionais, técnicos, consultores, professores e palestrantes de reconhecida experiência e conhecimento; palestras e debates sobre temas da atualidade contribuirão para o desenvolvimento do setor, favorecendo a realização de novos negócios por meio de uma mostra de produtos e serviços, com a participação das mais importantes empresas fornecedoras atuantes no Brasil.

Nas próximas semanas esta coluna divulgará o “card” dos palestrantes e painelistas especialmente selecionados para este evento, que pela primeira vez desbrava fronteiras das Minas Gerais e chega ao estado de São Paulo, maior polo emissor brasileiro em todos os segmentos do turismo.

O público do 24º Encontro da Hotelaria será composto de empresários, executivos e profissionais dos principais hotéis, pousadas, resorts de Olímpia e de diversas cidades do Estado, também dirigentes sindicais, presidentes de entidades, agentes de viagens, turismólogos, fornecedores, representantes da administração pública municipal e estadual, além de consultores e jornalistas especializados.

O evento desde sua primeira edição em 2006, visa contribuir para a atualização e capacitação empresarial e profissional, análise do cenário atual e das tendências do mercado. Renomados profissionais, todos gestores de destacada atuação no mercado falarão sobre suas respectivas visões e propostas de soluções para o crescimento sustentável do setor hoteleiro e gastronômico nos próximos anos.

Olímpia – parques aquáticos mais visitados do mundo

A cidade cujas origens remontam sitiantes vindos exatamente de Minas Gerais, completou neste domingo (2 de março) 122 anos. Quando fundada em 1903, era apenas uma colônia agrícola e neste espaço de tempo se transformando em um dos maiores polos turísticos do país, impulsionado em especial pelo crescimento do setor hoteleiro e dos citados parques aquáticos. De terras férteis a uma das referências nacionais do turismo, a trajetória do município reflete o desenvolvimento econômico, inovação e investimentos estruturais que consolidaram Olímpia como Estância Turística.

Desde sua fundação, Olímpia se destacou pela produção agrícola. A cultura do café, predominante no início do século XX, abriu caminho para a pecuária e, depois, para o cultivo de cana de açúcar.

Depois veio a laranja, daí a origem do nome do primeiro parque aquático: Thermas dos Laranjais nos anos 80. A vanguarda da modernização da lavoura e o fortalecimento da agroindústria impulsionaram a economia local, criando as bases para um destino em constante crescimento. Paralelamente ao agro, o município investiu em infraestrutura e planejamento urbano, resultando em melhorias significativas em áreas de saúde, educação e transporte. Essas iniciativas foram essenciais para a diversificação dos modais econômicos preparando Olimpia para um novo virtuoso ciclo de desenvolvimento: O Turismo.

Com o sucesso do Parque Thermas dos Laranjais o visionário empresário local, Benito Benatti reuniu seus sócios e investiu em novas atrações criando assim um destino turístico pulsante que trouxe consigo investidores do setor de hotelaria. Um após o outro começaram a surgir os grandes resorts e outros atrativos de lazer. O crescimento do turismo culminou com o surgimento do Hot Beach que a partir daí consolidou o destino como referência no setor.

Depois do Thermas e a chegada em peso da hotelaria foi preciso oficializar este “boom”. O reconhecimento aconteceu em 2014 quando a cidade foi elevada a categoria de Estância Turística resultado dos esforços comuns e harmônicos dos governos municipal e estadual. Esse status garantiu novos recursos e benefícios fiscais para robustos investimentos o que propiciou o crescimento da rede hoteleira, melhorias na mobilidade urbana e expansão dos muitos atrativos turísticos.

A evolução fez Olimpia atingir um novo patamar como primeiro destino a receber a denominação de Distrito Turístico do Estado de São Paulo, consolidando-se como um dos principais polos do país. Em 2021 era inaugurado o maior resort do país, o Solar das Águas Thermas Resort.

Situada na Região Metropolitana de São José do Rio Preto que compõe um total de 37 municípios cujo planejamento estratégico é totalmente integrado. Dos iniciais 709 leitos em 2009, Olimpia disponibiliza hoje um total de 32.680 leitos distribuídos entre resorts, hotéis, pousadas e casas de aluguel por temporada.

Em 2024 o destino recebeu 5 milhões de visitantes representado um aumento de 23% em relação ao ano anterior. No total são 9 resorts, 18 hotéis, 4 flats, 50 pousadas e cerca de 500 casas de locação por temporada com RHC (Registro de Hospedagem Caseira).

Desta forma o turismo responde hoje por 65% da movimentação econômica do município impactando fortemente na geração de empregos em toda região. Este ano como o pródigo calendário de feriados Olimpia estima obter novo crescimento em todos os seus indicadores chegando a 6 milhões de visitantes.

A construção do Aeroporto Internacional do Norte Paulista, em Olimpia, representa um novo marco para o desenvolvimento da cidade e toda região. Com investimentos acima de 100 milhões de Reais a obra será executada pela Infraero e deve ser concluída até meados do ano que vem consolidando Olimpia definitivamente como um dos principais polos turísticos e econômicos do interior paulista.

Localizado a cerca de 20 kms do centro da cidade o aeroporto possibilitará pousos e decolagens de aeronaves de grande porte, um terminal de passageiros moderno, áreas de embarque e desembarque e espaços de apoio ao turista. A expectativa é operar até 1 milhão de passageiros por ano o que será uma mola propulsora para a atividade hoteleira, comércio e serviços.

SAVE THE DATE > 24 a 26 de Junho. Estaremos lá!

“Neste aniversário de 122 anos, Olímpia celebra não apenas sua história, mas também um futuro promissor, onde turismo, desenvolvimento e qualidade de vida seguirão caminhando lado a lado”

Maarten Van Sluys (Consultor Estratégico em Hotelaria – MVS Consultoria)

Instagram: mvsluys e-mail: mvsluys@gmail.com WhatsApp: (31) 98756-3754

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Precatórios avançam e preocupam

Caro leitor, o aumento de despesas com precatórios, o julgamento no STF que pode tornar réu Jair Bolsonaro e outros acusados de tramar um golpe de Estado e a redemocratização brasileira, há 40 anos, são temas desta edição. Inscreva-se na newsletter Fumus Boni Iuris. Boa leitura.

Despesa com precatórios supera R$ 100 bi por ano

Sentenças contra a União continuam aumentando, ao contrário do pretendido pelas áreas técnica e jurídica do governo federal, que buscam reduzir valores para o impacto em 2027, quando todo o gasto com as decisões judiciais voltará a ser computado dentro dos limites das regras fiscais. Equipes econômica e jurídica correm para mitigar as consequências e defendem que o assunto seja rediscutido

Congresso ignora STF e mantém brechas sobre emendas

Regras aprovadas por deputados e senadores estabelecem critérios para repasses e permitem a continuidade de sigilo sobre autores de indicações

Zanin adota rito extraordinário para julgar trama golpista

Presidente da Primeira Turma do STF agenda análise da denúncia contra Jair Bolsonaro e outros acusados para 25 de março

Rapidez de Moraes coloca investigados em estado de alerta

Advogados acreditam que denúncia será recebida sem dificuldades e que o STF pretende dar rápido desfecho ao caso ainda neste ano

STM: Bolsonaro pode ser julgado por crimes militares

Nova presidente do Superior Tribunal Militar cita prática de incitação à tropa, mas diz que eventual denúncia cabe ao Ministério Público Militar

Mariana: Decisão em Londres deve demorar seis meses

Julgamento contra a mineradora BHP é concluído; afetados pelo rompimento de barragem pedem R$ 268 bilhões em indenizações

Trump pede à Suprema Corte permissão para restringir cidadania

Governo dos EUA quer limitar a abrangência das decisões de três tribunais inferiores que suspenderam ordem presidencial

Redemocratização completa 40 anos sob a sombra do retrocesso

Testemunhas da costura que elegeu Tancredo comparam golpismo de quatro décadas atrás com o que colocou em risco o resultado das eleições de 2022

STJ define tese para litigância predatória

Prática causa prejuízo de cerca de R$ 10 bilhões por ano ao Judiciário brasileiro, segundo estimativa do TJMG

Cade debate fim da punição de pessoas físicas por cartel

Tese polêmica ressurgiu a partir do voto do conselheiro Carlos Jacques em um processo relativo ao segmento de cimento

Emperra contratação de servidores fora do RJU

Governo aguarda acórdão da decisão do STF que derrubou a obrigatoriedade do regime jurídico único

Artigo: Davi versus Golias

STF precisa ser o fiel da balança do pacto federativo, não permitindo que o Executivo seja o beneficiário da imensa maioria das ações judiciais tributárias

Pesquisadores da USP sugerem modelo para reduzir impactos ambientais da extração de madeira na Amazônia

A pesquisa da USP de Piracicaba (SP) utilizou modelos de simulação que resultou no critério ‘distância mínima de corte’ (DMCdistância).

Esse critério considera a proximidade entre as árvores que permaneceram, ou seja, que não foram cortadas, e a atividade dos polinizadores, como abelhas e outros insetos.

O DMCdistância varia conforme a distância que os insetos percorrem, pois eles fazem a polinização que resulta na reprodução das árvores remanescentes.

A legislação atual estabelece que uma área de corte legal de madeira deixe 10% de vegetação nativa, mas não dispõe de critérios de como deixá-la.

Uma das intenções do estudo é permitir que a lei possa ser alterada para ser mais específica e promover menos impacto ambiental nas áreas de extração.

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba (SP), propôs novas estratégias para o manejo de áreas que recebem extração de madeira legal na floresta Amazônia. O intuito é preservar a biodiversidade e reduzir os impactos da extração no ambiente.

A pesquisa utilizou modelos de simulação que resultou no critério ‘distância mínima de corte’ (DMCdistância).

Esse critério considera a proximidade entre as árvores que permaneceram, ou seja, que não foram cortadas, e a atividade dos seus polinizadores, como abelhas, mariposas e outros insetos.

Essa distância mínima entre as árvores remanescentes é vital para que os insetos continuem com a polinização, fator que permite a troca genética e reprodução das árvores. Isso, a longo prazo, facilita no crescimento de nova vegetação e conservação da biodiversidade da Amazônia.

“O que a gente está propondo é avaliar a distância média que naturalmente existe na floresta entre os indivíduos de uma espécie […] e vermos o quanto o polinizador, porque cada planta precisa ser polinizada, voa, em média, de uma árvore para a outra. Não podemos alterar isso [distância de vôo dos polinizadores]. Precisamos manter esse polinizador fazendo o trabalho dele para ele polinizar as plantas e depois elas produzirem sementes”, informa Edson Vidal, pesquisador do Departamento de Ciências Florestais da Esalq/USP e um dos responsáveis pelo estudo.

Espécies trabalhadas

O critério de DMCdistância varia de espécie para espécie. O estudo trabalhou com o Jatobá (Hymenaea courbaril), Ipê Amarelo (Handroanthus serratifolius) e a Massaranduba (Manilkara elata), árvores que tem um valor financeiro considerável e são mais exploradas na região amazônica, informou o pesquisador.

“A estratégia do estudo é para tornar o manejo mais sustentável. Ao retirar um produto, mesmo que seja a madeira, você cria alguns critérios que podem manter a vida daquela floresta sem perturbar muito, deixando aquela espécie reproduzindo. Essa foi a ideia do nosso trabalho”, informa Vidal.

“A estratégia do estudo é para tornar o manejo mais sustentável. Ao retirar um produto, mesmo que seja a madeira, você cria alguns critérios que podem manter a vida daquela floresta sem perturbar muito, deixando aquela espécie reproduzindo. Essa foi a ideia do nosso trabalho”, informa Vidal.

Vidal afirmou que esse critério pode ser adotado para outras espécies, desde que haja análise para cada uma. Além disso, a distância média dos indivíduos pode ser feita com auxílio de GPS.

Como funciona hoje

A legislação vigente é a resolução n° 406 de 2 de fevereiro de 2009 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Ela estabelece parâmetros técnicos a serem adotados na elaboração, apresentação, avaliação técnica e execução de Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS) com fins madeireiros, para florestas nativas na Amazônia.

Essa mesma normativa estabelece que a área de corte legal deixe 10% de vegetação nativa. Essas árvores ‘mais velhas’ seriam responsáveis por manter a diversidade local ao se reproduzirem e reflorestarem a região que recebeu a extração de madeiras.

Legislação ‘generalista’

No entanto, Vidal informou que a legislação atual é generalista, pois não dá diretrizes de como agir com as árvores remanescentes.

“[A legislação vigente] não tem uma sugestão de como deixar esses 10% na área. Cada espécie de árvore tem um padrão de distribuição na floresta. Umas têm uma distribuição uniforme, outras são aleatórias e não tem garantia de que deixar esse 10% vão fazer com que aquela espécie consiga produzir sementes e se reproduzir”, informa Vidal.

“O estudo veio para isso. Ao invés de criar critérios generalista, precisávamos fazer algo funcional, que mantivesse a função dessas espécies”, complementa.

“O estudo veio para isso. Ao invés de criar critérios generalista, precisávamos fazer algo funcional, que mantivesse a função dessas espécies”, complementa.

O pesquisador informou que uma das intenções do estudo é permitir que legislação possa ser alterada no futuro para promover manejo mais funcional nessas áreas.

Local de pesquisa

O estudo foi conduzido em quatro áreas amazônicas de manejo florestal legal que totalizam 48.876,35 ha. Duas áreas são de duas empresas privadas certificadas no Estado do Amazonas. Outras duas, uma no Pará e outra em Rondônia fazem parte de duas concessões florestais.

Estudo

O estudo “Maintaining genetic diversity in the Amazon: Species-specific strategies are more effective for managed forests than generalist criteria in Brazilian legislation” (Manutenção da diversidade genética na Amazônia: estratégias específicas para espécies são mais eficazes para florestas manejadas do que critérios generalistas na legislação brasileira, em português) foi publicado no periódico Forest Ecology and Management.

Autores

A pesquisa contou com a autoria de Vanessa Erler Sontag, Beatriz Dadio, Guilherme Bovi Ambrosano, Samira Rodrigues Miguel, cientistas do programa de Pós-Graduação em Recursos Florestais; Daigard Ricardo Ortega Rodriguez, Cláudia Fontana, Gabriel Assis-Pereira, pesquisadores de Pós-Doutorado do Departamento de Ciências Florestais e Edson Vidal professor e orientador responsável.

VÍDEOS: tudo sobre Piracicaba e Região

Plantas inteligentes? Como a Tecnoflora está revolucionando a ciência

A Tecnoflora representa uma inovadora interseção entre biotecnologia e botânica, onde plantas e sistemas artificiais se unem para criar soluções sustentáveis. Este conceito emergente está ganhando atenção significativa no campo da biotecnologia, prometendo transformar a maneira como interagimos com o meio ambiente. A fusão entre organismos vegetais e máquinas não só amplia as capacidades das plantas, mas também oferece novas perspectivas para a criação de cidades inteligentes e agricultura de precisão.

Com o avanço da tecnologia, a possibilidade de integrar plantas a sistemas eletrônicos se torna cada vez mais viável. Essa simbiose pode resultar em sensores biológicos capazes de monitorar condições ambientais em tempo real, oferecendo dados valiosos para a preservação do meio ambiente. Além disso, a Tecnoflora pode revolucionar a bioarquitetura, permitindo a criação de estruturas vivas que se adaptam e respondem ao seu entorno.

O que é tecnoflora e como ela está transformando o futuro das plantas?

A Tecnoflora é uma área de estudo que explora a combinação de plantas com tecnologia avançada para criar sistemas híbridos. Este campo de pesquisa busca integrar circuitos eletrônicos em plantas, transformando-as em dispositivos biológicos capazes de interagir com o ambiente de maneiras inéditas. A ideia central é utilizar as propriedades naturais das plantas, como a fotossíntese e a transpiração, para alimentar dispositivos eletrônicos e coletar dados ambientais.

Essa abordagem não só amplia as funcionalidades das plantas, mas também abre caminho para o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. Por exemplo, plantas cibernéticas podem ser utilizadas em ambientes urbanos para monitorar a qualidade do ar, detectar poluentes e até mesmo atuar como sistemas de alerta precoce para desastres naturais. A Tecnoflora, portanto, representa uma nova fronteira na interação entre biologia e tecnologia.

Como funciona o biohibridismo vegetal?

O biohibridismo vegetal é um processo que combina elementos biológicos e eletrônicos para criar plantas cibernéticas. Este processo envolve a inserção de sensores e circuitos em plantas, permitindo que elas se comuniquem com dispositivos externos. A integração de nanotecnologia em plantas é uma das abordagens mais promissoras, permitindo a criação de sensores que podem detectar mudanças no ambiente, como variações de temperatura e umidade.

Além disso, o biohibridismo vegetal pode ser utilizado para melhorar a eficiência das plantas em processos como a fotossíntese, aumentando sua capacidade de capturar e armazenar energia solar. Essa tecnologia tem o potencial de transformar a agricultura, permitindo o desenvolvimento de culturas mais resistentes e produtivas. A combinação de plantas e tecnologia, portanto, não só beneficia o meio ambiente, mas também pode ter um impacto significativo na segurança alimentar global.

Planta de laboratório – Créditos: depositphotos.com / JanPietruszka

Aplicações da tecnoflora: da agricultura de precisão a sistemas sustentáveis urbanos

A Tecnoflora tem uma ampla gama de aplicações práticas, desde a agricultura de precisão até o desenvolvimento de sistemas urbanos sustentáveis. Na agricultura, plantas equipadas com sensores podem monitorar condições do solo e do clima, permitindo que os agricultores tomem decisões mais informadas sobre irrigação e uso de fertilizantes. Isso não só aumenta a eficiência das operações agrícolas, mas também reduz o impacto ambiental.

Em ambientes urbanos, a Tecnoflora pode ser utilizada para criar bioarquitetura, onde plantas são integradas a edifícios para melhorar a qualidade do ar e a eficiência energética. Estruturas vivas, como paredes verdes e telhados verdes, podem ajudar a regular a temperatura e a umidade, criando ambientes mais confortáveis e sustentáveis. Além disso, plantas cibernéticas podem ser utilizadas em parques e espaços públicos para monitorar a saúde ambiental e promover a biodiversidade.

Os desafios e avanços na integração de plantas com circuitos e inteligência artificial

A integração de plantas com circuitos eletrônicos e inteligência artificial apresenta desafios significativos, mas também oferece oportunidades únicas para inovação. Um dos principais desafios é garantir que os dispositivos eletrônicos não interfiram nas funções biológicas das plantas. Pesquisadores estão desenvolvendo materiais biocompatíveis e técnicas de inserção que minimizam o impacto sobre as plantas, permitindo que elas continuem a crescer e se desenvolver normalmente.

Além disso, a utilização de inteligência artificial em conjunto com plantas cibernéticas pode melhorar a análise de dados ambientais, permitindo a identificação de padrões e tendências que seriam difíceis de detectar manualmente. Essa combinação de tecnologia e biologia tem o potencial de transformar a maneira como interagimos com o mundo natural, criando um futuro onde plantas e máquinas trabalham juntas para promover a sustentabilidade e a resiliência ambiental.

Tags: BiotecnologiaPlantas CibernéticasSustentabilidadeTecnologia

5 anos de covid: como a pior pandemia de nossa geração mudou o mundo, da saúde e ciência à economia e política

“Pandemia não é um termo que deve ser usado de modo leve ou descuidado. É uma palavra que, se mal utilizada, pode causar medo irracional ou uma aceitação injustificada de que a luta acabou. Ambos levam a sofrimento e mortes desnecessárias.”

Esse foi um dos trechos do discurso feito pelo biólogo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus em 11 de março de 2020, dia em que a covid-19 foi oficialmente classificada como uma pandemia.

“Nós acabamos de soar um alarme alto e claro”, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) naquela ocasião.

No início de 2020, pouco mais de dois meses após o surgimento de uma “pneumonia misteriosa” em Wuhan, na China, a doença causada pelo novo coronavírus havia provocado 118 mil casos e 4,2 mil mortes em 114 países.

No desenrolar de meses e anos seguintes, a covid se espalharia por todos os continentes, com 778 milhões de casos e pelo menos 7 milhões de mortes registrados — embora algumas estimativas indiquem que esse número de óbitos possa ter ultrapassado a casa dos 20 milhões.

No Brasil, 37,5 milhões foram infectados e 700 mil acabaram mortos, segundo as estatísticas oficiais.

Passados cinco anos desde o início da emergência global de saúde, o que mudou no mundo, da saúde à ciência, da economia à política?

A seguir, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil discutem as cicatrizes que a covid-19 deixou no planeta — e se estamos mais preparados (ou não) para lidar com as próximas pandemias.

Os primeiros passos: achatar a curva e se proteger

Num cenário onde ainda não existiam vacinas e pouco se sabia sobre as formas de transmissão do Sars-CoV-2 (o coronavírus causador da covid-19), uma das primeiras medidas adotadas pelos países para conter a crise foi pedir — ou até mesmo determinar com a força da lei — que as pessoas ficassem em casa.

As escolas, o transporte público, as lojas e muitos escritórios foram fechados por tempo indeterminado.

Um dos bordões mais usados nesse período era “achatar a curva” — ou seja, conter o ritmo de transmissão do vírus, para que a onda de novas infecções não se transformasse num tsunami devastador.

Ou seja, se os casos de infecção não subissem tão rapidamente, os hospitais teriam capacidade de atender os casos mais graves conforme eles aparecessem.

Passados cinco anos desse período, o matemático Adam Kucharski defende que a estratégia de achatar a curva era necessária naquele momento, para evitar que os sistemas de saúde de fato entrassem em colapso.

“Quando um hospital fica lotado, as mortes aumentam por causa da falta de oxigênio e de outros recursos”, explica o especialista, que é professor de Epidemiologia de Doenças Infecciosas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido.

“Mas talvez aquela ideia de que teríamos apenas um único pico de covid-19, que poderia ser adiado ou diluído, se mostrou enganosa em muitos países. Em lugares com uma grande população de idosos, essa doença era grave demais para uma única onda que não excederia a capacidade dos sistemas de saúde”, pondera ele.

Para Kucharski, muitos governos “não deixaram claro o que era viável e eficaz em termos de controlar” a disseminação do coronavírus.

“Durante uma pandemia, as decisões têm uma espécie de ‘dependência das primeiras escolhas’: se você segue por um caminho no início, como permitir uma quantidade elevada de infecções, pode ter opções reduzidas num futuro próximo. Muitos países descobriram que estavam no caminho errado tarde demais, antes de considerar quais alternativas estavam disponíveis”, analisa ele.

O matemático destaca que os planos sobre o que fazer deveriam estar concluídos antes de uma crise global de saúde estourar — nunca durante uma situação como essa.

Cartaz em inglês pede que as pessoas fiquem em casa para salvar vidas

Ainda nessa primeira fase da pandemia, vale destacar as recomendações sobre os demais cuidados preventivos — como lavar bem as mãos, limpar superfícies, melhorar a ventilação de lugares fechados, usar máscaras ao sair de casa e ficar em isolamento caso apareçam sintomas sugestivos da infecção (tosse, mal-estar, febre, dor no corpo…).

Essa lista de cuidados foi influenciada pelo debate sobre como o coronavírus é transmitido. De início, entidades como a própria OMS destacaram que o patógeno passava de uma pessoa para outra por meio de gotículas de saliva que são expelidas por boca ou nariz no ato de falar, tossir ou espirrar.

Com o passar do tempo, no entanto, descobriu-se que o vírus também pode infectar por meio do aerossol, um tipo de partícula que também sai por boca e nariz, mas é muito menor e capaz de permanecer em suspensão no ar por um tempo prolongado (em comparação com as gotículas de saliva, que são maiores e mais pesadas).

“Inicialmente, a OMS se concentrou nas partículas maiores como as principais fontes de exposição [ao coronavírus]. Alguns cientistas que trabalham nesta área consideram que a entidade não prestou atenção suficiente aos aerossois”, lembra o virologista Mark Sobsey, pesquisador e professor do Departamento de Ciências Ambientais e Engenharia da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

“Mas, à época, as evidências para os riscos de transmissão de patógenos por aerossol eram muito limitadas e não estavam bem documentadas com base em trabalhos científicos confiáveis e rigorosos”, complementa ele.

Foi necessário, então, entender essa dinâmica das partículas transportadas pelo ar — uma informação fundamental para criar políticas de prevenção da covid-19 mais efetivas.

Para Sobsey, a pandemia de covid-19 revelou “as deficiências em reconhecer, antecipar e responder aos patógenos” que podem provocar enormes crises.

“Desde então, a OMS e a comunidade global de saúde criaram sistemas novos e melhores para lidar com essas necessidades, que incluem a vigilância e a monitorização de patógenos, inclusive com o auxílio da inteligência artificial”, complementa ele.

A revolução dos imunizantes

Durante quase 60 anos, a vacina que protege contra a caxumba deteve o recorde de rapidez no desenvolvimento: os pesquisadores levaram cerca de quatro anos para criar, testar e obter a aprovação deste produto, que chegou ao mercado a partir de 1967.

Essa marca histórica foi obliterada durante a pandemia de covid-19.

Se considerarmos que os primeiros casos da doença começaram a ser registrados no final de dezembro de 2019 e uma dose de vacina aprovada pelas agências regulatórias foi aplicada na inglesa Margaret Keenan no dia 8 de dezembro de 2020, essa corrida na busca por soluções efetivas contra o coronavírus foi concluída em menos de doze meses.

Entre o final de 2020 e o início de 2021, diversas plataformas vacinais mostraram resultados animadores em termos de segurança e eficácia.

Foi o caso dos imunizantes de mRNA, desenvolvidos por Pfizer/BioNTech e Moderna, de vetor viral, criados por AstraZeneca/Oxford e Janssen, e as de vírus inativado, como a CoronaVac, da Sinovac/Butantan.

Esses produtos ganharam uma aprovação emergencial das agências regulatórias (como o FDA nos EUA e a Anvisa no Brasil) e passaram a ser usados em larga escala, nas maiores e mais rápidas campanhas de vacinação em massa já registradas.

“Nesse período, aprendemos que as novas plataformas vacinais são muito importantes para enfrentar surtos, epidemias e pandemias. O desenvolvimento tradicional de vacinas, que usualmente leva dez anos ou mais, pode ser desafiado, com resultados de qualidade”, comemora a médica Sue Ann Costa Clemens, professora titular de Saúde Global do Departamento de Pediatria da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Também aprendemos que desenvolver essas inovações em pouco tempo depende de uma integração de diferentes setores, que vão desde a concepção da molécula, a manufatura e os sistemas de saúde”, complementa ela, que ainda ocupa o cargo de chefe do Instituto de Saúde Global da Universidade de Siena, na Itália.

É claro que a disponibilização das vacinas contra a covid-19 num prazo tão curto dependeu de diversos fatores.

Como outros coronavírus — caso de Sars e Mers — já haviam causado surtos localizados em anos anteriores, os cientistas possuíam alguma experiência e um conhecimento acumulado sobre a estrutura e o funcionamento dessa família de patógenos.

Mesmo plataformas inéditas, como o mRNA, que até então não havia sido usado para criar uma vacina, era alvo de pesquisas há décadas — num trabalho que, inclusive, rendeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2023 para a bioquímica húngara Katalin Karikó e o imunologista americano Drew Weissman.

A criação de vacinas contra a covid-19 bateu todos os recordes anteriores de desenvolvimento de imunizantes

Cinco anos depois, porém, os desafios relacionados à vacinação da covid-19 se modificaram.

“Precisamos entender as necessidades de uma situação de pandemia, de emergência, e o contexto do dia a dia, dentro dos sistemas nacionais de imunização”, diferencia Clemens.

“Durante uma pandemia, buscamos produtos com alta eficácia e agilidade no desenvolvimento e no escalonamento da produção. Já para a rotina, necessitamos de vacinas seguras, com maior durabilidade, um acondicionamento viável e baixo impacto orçamentário.”

“As vacinas de mRNA, por exemplo, têm excelente eficácia e representam um avanço inenarrável para a ciência, a medicina e a saúde global. No entanto, elas ainda apresentam um custo elevado e requerem doses de reforço com maior frequência, a cada 6 meses, o que traz um impacto orçamentário grande”, pondera a médica, que também é consultora-sênior para o desenvolvimento de vacinas da Fundação Bill & Melinda Gates.

Em outras palavras, na avaliação de Clemens, é preciso superar essas barreiras para que as inovações e tecnologias, vitais para acabar com a mais recente pandemia, se encaixem melhor na rotina dos programas de imunização de cada país.

Mas os desafios não param por aí. “Há necessidade de melhorar a vigilância global de novos patógenos, atualizar a regulamentação das agências sanitárias e fazer a manutenção das redes de laboratório e pesquisa clínica”, lista Clemens.

Ao lado de outros especialistas, a médica propõe a criação de uma “biblioteca” de protótipos de vacinas.

A ideia é que essas “receitas” para produzir imunizantes contra os patógenos que geram preocupação e têm potencial de causar surtos, epidemias e pandemias no futuro estejam amplamente disponíveis aos cientistas do mundo inteiro. Assim, fica mais fácil desenvolver, testar e fabricar doses com rapidez, para conter o problema antes que ele se agrave.

“E não podemos nos esquecer da hesitação vacinal, que requer informações adequadas e o combate às notícias falsas, e das dificuldades de acesso às doses, pois até hoje existem países com menos de 5% da população vacinada contra a covid-19.”

Um mundo (ainda) mais desigual

As vacinas contra a covid, aliás, foram um exemplo de como a luta contra a pandemia em escala global foi desequilibrada.

Quando os imunizantes foram aprovados, os países ricos logo garantiram a maior fatia das primeiras doses produzidas. As nações mais pobres tiveram que aguardar meses até que pudessem receber alguns lotes desses produtos.

Um artigo assinado por pesquisadores da Universidade de Utah, nos EUA, dá a dimensão da disparidade: em julho de 2021, 80% da população mundial tinha acesso a 5% das doses de vacina disponíveis, enquanto os outros 20% abocanharam 95% dos imunizantes.

Nesses 20%, estão representadas as nações mais ricas, mesmo aquelas que integravam a Covax, uma iniciativa da OMS que tentou garantir uma distribuição mais homogênea das doses pelo planeta.

“A pandemia nos lembrou que, na verdade, certas cidadanias e certos passaportes têm mais direito à vida do que outros, apesar do que consta na Declaração dos Direitos Humanos e outros documentos do tipo”, lamenta o economista Francisco Ferreira, diretor do Instituto de Desigualdades Internacionais da Escola de Economia de Londres.

O especialista, aliás, entende que a pandemia trouxe diversos outros exemplos de disparidades.

“A covid-19 revelou, ou chamou mais atenção, para algumas formas de desigualdade que já existiam, exacerbou algumas outras e criou novos problemas”, avalia ele.

Um exemplo da primeira categoria são as questões habitacionais. Pessoas que já viviam em favelas ou moradias precárias sempre sofreram com a falta de acesso a serviços como água potável e saneamento básico — algo que se tornou ainda mais aparente durante a emergência sanitária.

“Nesses casos, a capacidade de fazer isolamento passou a representar uma questão de vida ou morte”, destaca Ferreira.

“Já entre as desigualdades que foram exacerbadas, estão aquelas entre trabalhadores formais e informais. Quando a economia fechou, o primeiro grupo tinha maior facilidade em manter os empregos ou pelo menos ter acesso a benefícios públicos, como o seguro-desemprego. Já os trabalhadores informais, principalmente aqueles cujo ofício envolvia contato direto com o público, simplesmente perderam o ganha-pão, ao menos até a criação de benefícios emergenciais.”

Já entre as novas formas de desigualdade criadas a partir da pandemia, o economista lembra da possibilidade de trabalho remoto, que geralmente ficou restrita a quem possuía um maior nível de educação.

Algumas desigualdades foram aprofundadas e exacerbadas durante a pandemia

O epidemiologista Michael Marmot, diretor do Instituto de Equidade em Saúde da Universidade College London, na Inglaterra, concorda que a covid-19 revelou, exacerbou e aprofundou as desigualdades — tanto na comparação entre países como entre cidades, Estados ou regiões de uma mesma nação.

“Antes da pandemia, os dados já demonstraram que, quanto maior o nível de privação econômica de um lugar, maior a taxa de mortalidade por todas as causas ali. A covid-19 acentuou isso ainda mais”, explica ele.

“Indivíduos que moravam em casas lotadas, ocupavam posições da linha de frente, não podiam trabalhar de casa, entre outros fatores, estavam potencialmente mais expostos ao coronavírus”, complementa o pesquisador.

Marmot também entende que a emergência sanitária escancarou os problemas nos sistemas de saúde — a falta de insumos, leitos hospitalares, remédios, máscaras e outros equipamentos aprofundou ainda mais a crise em alguns lugares.

Talvez um dos maiores exemplos disso seja a cidade de Manaus, que no início de 2021 sofreu com a crise da falta de oxigênio e ganhou as manchetes do mundo pela quantidade de mortes registradas.

“Os sistemas de saúde precisam ter uma taxa de ociosidade e uma certa folga no uso de recursos. Se 100% dos leitos hospitalares estão ocupados o tempo todo, certamente isso representa um problema”, analisa ele.

Ferreira e Marmot veem a necessidade de criar mecanismos para fortalecer organizações globais de saúde, como a OMS, para uma resposta mais coordenada (e igualitária) na próxima emergência global — embora ambos tenham uma visão pessimista sobre o futuro.

“Precisamos garantir o acesso universal às vacinas, que devem ser encaradas como um bem comum”, sugere o epidemiologista.

“Mas definitivamente não estamos hoje mais preparados para enfrentar a próxima pandemia”, complementa ele.

“E o ressurgimento de governos altamente nacionalistas e tribalistas, como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, só piora essa situação”, constata Ferreira.

Perda de confiança, desilusão e radicalização

Num artigo intitulado As Cicatrizes Políticas de Epidemias, publicado em junho de 2020, os autores discutiam qual seria o legado do coronavírus — e projetaram que jovens adultos (dos 18 aos 25 anos), uma faixa etária de formação da visão de mundo e das preferências políticas, seriam negativamente impactados, especialmente em quesitos como a confiança que eles depositam nas instituições e nos líderes de seus países.

Segundo eles, esse problema seria mais grave nos locais cujos governos se mostraram “fracos”, com “menos capacidade de agir para conter a pandemia”.

Passados cinco anos, os responsáveis pela análise consideram que as projeções se concretizaram — e tendem a se consolidar nas próximas décadas.

O economista Cevat Giray Aksoy, pesquisador sênior do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, aponta que a pandemia foi um “teste de estresse” para governos e escancarou “fraquezas estruturais profundas”.

O Banco Mundial, por exemplo, calcula que o PIB global teve uma contração de 3,4% em 2020, com uma redução de 4,7% nas economias avançadas e 2,2% nos mercados emergentes.

“Esse choque sem precedentes lançou 97 milhões de pessoas na extrema pobreza, no que foi o primeiro crescimento deste indicador em duas décadas”, diz Aksoy, que também é professor associado do Departamento de Política Econômica do King’s College, em Londres.

E a recuperação econômica depois dessa primeira retração não foi sólida, considera ele. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que o crescimento global vai se estabilizar em 3,2% em 2024 e 2025.

“No entanto, a previsão de longo prazo é menos otimista, com a expectativa de que essa taxa decaia para 3,1% nos próximos cinco anos, a mais baixa projeção das últimas décadas. Isso reflete desafios estruturais permanentes, como a queda da produtividade e os declínios demográficos”, destaca o economista.

Aksoy pontua que as consequências econômicas da pandemia — aumento de inflação, desemprego, desigualdade… — ampliaram a falta de confiança.

“Tudo isso reforçou a percepção de que os governos ou são incapazes ou não possuem a vontade para atender as necessidades imediatas dos cidadãos”, diz ele.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um levantamento do Centro de Pesquisa Pew de 2024 mostrou que apenas 22% dos americanos tinham confiança de que o governo faz o certo “sempre” ou “na maioria das vezes”.

Já o Barômetro de Confiança da Edelman de 2025 revelou que, numa escala global, 60% das pessoas demonstram alguma preocupação com a economia.

“E uma parcela significativa dos indivíduos que participaram desse levantamento acredita que ações hostis, inclusive com violência, podem ser necessárias para gerar mudanças”, destaca Aksoy.

“Isso mostra uma preocupante virada de chave para a desilusão e, em alguns casos, para a radicalização.”

“E essas atitudes, quando ganham força em um período tão importante da vida de um indivíduo, entre os 18 a 25 anos, tendem a persistir e influenciar o comportamento político por muitos anos”, prevê ele.

O economista Orkun Saka, outro autor do artigo publicado em 2020, vê com preocupação a mudança das preferências políticas, principalmente entre os mais jovens, que se mostram cada vez mais abertos às ideias de partidos da direita radical.

“Isso não é particularmente surpreendente diante de nossos achados”, constata o especialista, que é professor associado da City University of London, também no Reino Unido.

Economistas apontam Brasil como exemplo de ‘respostas inconsistentes’ e ‘brigas políticas’ durante a pandemia

Mas será que essa reação da população variou conforme as ações que cada governo tomou durante a pandemia?

Aksoy diz que sim — e cita dois países como exemplo.

“No Brasil, respostas inconsistentes e brigas políticas durante a crise sanitária erodiram a confiança nas instituições entre os eleitores. Esse declínio criou um terreno fértil para a instabilidade política e a desilusão”, cita ele.

“Em contraste, a Nova Zelândia teve uma resposta à pandemia caracterizada por ações decisivas, rápidas e transparentes, permeadas por uma comunicação empática. Esses esforços não apenas controlaram a circulação do coronavírus, como também aumentaram a confiança da população, especialmente das camadas mais jovens”, compara ele.

Para o pesquisador, as políticas públicas dos dois países demonstram como “a confiança do público nas instituições durante crises não é influenciada apenas pela gravidade dos eventos, mas também pela forma como os governos respondem”.

“Lideranças efetivas e transparentes podem mitigar problemas políticos e econômicos de longo prazo, enquanto políticas inconsistentes ou mal geridas exacerbam a desilusão e a polarização”, observa ele.

Saka reforça que intervenções políticas mais efetivas e rápidas — na forma de regras de distanciamento social, uso de máscaras, entre outros — resultaram num menor número de casos e mortes por covid-19.

“E isso, por sua vez, mostrou à população desses lugares que eles tinham um governo no qual podiam confiar”, diz ele.

“Na contramão, reações lentas e atrapalhadas, como as tomadas no Reino Unido, criaram decepção e desconfiança, especialmente em novas gerações que possivelmente testemunharam pela primeira vez o governo ser testado”, opina o economista.

Mas o que esperar para os próximos anos? Essas marcas da covid-19 continuarão visíveis em toda a sociedade? Ou elas vão cicatrizar depois de algum tempo?

Para Aksoy, isso vai depender das escolhas que os governos farão a partir de agora.

“Investimentos no crescimento econômico igualitário, em sistemas modernos de educação e no acesso aos cuidados de saúde, em paralelo a respostas transparentes às preocupações das pessoas, podem reconstruir a confiança e gerar resiliência.”

“Mas, sem reformas significativas, nós corremos o risco de entrar numa era prolongada de instabilidade política, divergência econômica e enfraquecimento da cooperação global, com profundas implicações na governança e na coesão social”, responde ele.

Saka pontua que a pandemia recente, assim como alguns outros eventos parecidos registrados ao longo da história, indicam que formou-se uma “geração covid-19”, com indivíduos que vão “apresentar crenças e comportamentos políticos diferentes pelos próximos 20 anos”.

“Diante disso, posso predizer que esses fatores só vão acelerar o ritmo da atual mudança política em direção a partidos populistas e extremistas nos próximos 10 ou 15 anos”, acredita o economista.

Perguntas sem respostas e esquecimentos coletivos

Em meio a toda essa convulsão social, o “aniversário” de cinco anos da pandemia também chama a atenção para a falta de soluções diante de alguns dos mistérios fundamentais relacionados à covid-19.

O primeiro deles: de onde surgiu o coronavírus?

Um corpo de evidências científicas aponta para um spillover, ou seja, o patógeno possivelmente “pulou” de um animal para seres humanos, fato que parece ter ocorrido num mercado de frutos do mar em Wuhan, na China.

Mas há um grupo de especialistas que defende com unhas e dentes que o vírus vazou de um laboratório de pesquisas, embora não existam muitos fatos documentados que corroborem essa teoria.

Outra pergunta: por que alguns pacientes desenvolvem a covid longa?

“Ainda não sabemos. Há pesquisadores que investigam a presença de alguns biomarcadores no organismo dessas pessoas”, responde a médica Trish Greenhalgh, do Departamento de Ciências da Saúde em Atenção Primária da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Em resumo, pessoas que tiveram um quadro mais severo, não tinham se vacinado quando pegaram covid-19 pela primeira vez, possuem outras doenças de base ou não puderam repousar durante a infecção têm mais probabilidade de desenvolver a covid longa”, lista a pesquisadora.

Manaus foi um dos epicentros da pandemia e passou por uma grave crise de falta de oxigênio no início de 2021

Numa esfera mais existencial, quase filosófica, há uma questão que sempre aparece na mente de quem acompanhou de perto a emergência sanitária global: será que estamos nos esquecendo de tudo o que vivemos durante a pandemia de covid-19?

O neurocientista Kevin LaBar, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, avalia que esse é um processo natural que acontece na nossa cabeça.

“Com o passar do tempo, as memórias tendem a desvanecer, mesmo aquelas relacionadas a eventos importantes”, constata ele.

“Isso acontece porque o cérebro tem uma capacidade limitada, então precisamos dedicar a energia disponível para codificar memórias dos novos eventos que acontecem em nossas vidas. Daí as lembranças de eventos passados, mesmo que relevantes, são comprimidas e arquivadas com menos vivacidade e detalhes.”

No caso específico da covid-19, LaBar entende que, embora o início da crise tenha sido similar para praticamente todo mundo (com os primeiros casos, o lockdown, um temor generalizado…), o desenrolar dos eventos se diferenciou de acordo com a vivência de cada um.

“A maioria das pessoas vai se lembrar de como a vida se modificou diante das primeiras restrições, mas, ao longo do tempo, a rotina se estabeleceu segundo a natureza do trabalho ou diante de episódios específicos, como uma infecção ou a morte de um ente querido”, raciocina o neurocientista.

“E isso cria dificuldades para cultivar uma espécie de ‘memória coletiva’ da pandemia de covid-19”, conclui ele.

Grêmio identifica Lyanco, do Atlético, como potencial reforço para a zaga

O Grêmio não se mostra satisfeito com as suas contratações durante o momento em que era possível negociar com mercados internacionais. Isso porque o clube entende que ainda é necessário preencher algumas lacuna no elencos. Assim, o planejamento do Imortal é aproveitar o período da janela doméstica e fechar com mais dois jogadores. Uma das prioridades é qualificar a zaga. Neste cenário, Lyanco, do Atlético, se enquadra no perfil ideal que os gaúchos traçaram para a posição. A informação é do portal “Gaúcha ZH”.

Apesar do interesse no jogador, o Tricolor gaúcho entende que precisará fazer um grande esforço para ter um desfecho positivo nas tratativas. Afinal, Lyanco é uma das principais peças no atual elenco do Galo, além de ser um dos mais utilizados no setor. Prova disso é que esteve em 10 dos 13 compromissos da equipe até aqui no ano. Como o defensor está nos planos do clube mineiro e do técnico Cuca, o Grêmio terá que enviar uma oferta com uma atrativa compensação financeira.

A janela doméstica tem início nesta segunda-feira (10) e fica aberta até o dia 11 de abril. Durante a “era Renato Gaúcho”, uma das principais críticas do time era a sua fragilidade defensiva. Por isso, o clube decidiu fazer uma reformulação neste setor do Imortal.

A equipe até apresentou um crescimento defensivo mesmo no começo do trabalho do técnico Gustavo Quinteros, mas a análise é que não seja suficiente. Nesta primeira fase da janela de transferências, o Tricolor Gaúcho conseguiu fechar com apenas um reforço para a zaga: Wagner Leonardo. Por sinal, tratou-se de uma transferência que, a princípio, não era uma das opções prioritárias do clube.

Entretanto, as conversas avançaram rapidamente desde o início até a conclusão. Anteriormente, o Grêmio tentou Marcão junto ao Sevilla, da Espanha, por empréstimo de uma temporada. As tratativas não avançaram porque a oferta salarial não agradou ao jogador. Posteriormente, o alvo passou a ser Jhohan Romaña, do San Lorenzo, da Argentina.

O Grêmio insistiu não contratação do defensor colombiano até o último dia da janela internacional, já que enviou três propostas. As partes até chegaram a um consenso sobre um valor, mas não obtiveram sucesso em finalizar a negociação.

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Aos 77 anos, Flávio Galvão fala da reprise de ‘Tieta’, de namoro e de projeto como diretor

Galã dos anos 1980 e 1990, Flávio Galvão pode ser visto atualmente na reprise de “Tieta”. Na trama, ele interpreta o comandante Dário, que desperta o interesse de Silvana (Claudia Magno), mesmo sendo casado com Laura (Claudia Alencar).

— Eu tenho muito orgulho de ter feito essa novela, porque tem um texto maravilhoso e, acho, o melhor elenco de uma trama em que já trabalhei. Tenho boas recordações; o personagem era engraçado e eu me divertia muito fazendo. Era uma delícia. Todo mundo na rua lembra do personagem, me param no mercado, o motorista de aplicativo comenta. Mesmo antes da reprise, já falavam dele — conta o ator, de 77 anos.

Ele ressalta que o rótulo de galã nunca o incomodou.

— Meus personagens eram completamente diferentes uns dos outros, ou seja, faço um trabalho de ator mesmo. Eu nunca me preocupei em ser ou não galã. As pessoas me achavam bonito, mas nunca tive essa vaidade. Tanto é que sou meio desleixado, meio mal arrumado — afirma.

Seu trabalho mais recente na TV foi em “Reis” (2022), novela em que deu voz a Deus. Agora, ele se prepara para dirigir um filme, com início das gravações planejado para daqui a dois meses:

— Estou na pré-produção de um filme em que sou diretor e que se chama “Inimiga íntima”. A história é um thriller sobre um triângulo amoroso, em que uma das personagens é capaz de crueldades sem tamanho. É suspense o tempo inteiro, cheio de histórias paralelas. É um projeto interessante e mais um destaque na minha carreira. Sou um sortudo. Minha trajetória sempre foi baseada em muito trabalho. Tive sorte porque peguei personagens ótimos e pude consolidar minha profissão no teatro, que é de onde venho. Passei pela dublagem, direção e atuação. São muitos anos de trabalho e nunca fiquei muito tempo parado. Eu nunca fiquei desempregado.

Na vida pessoal, Galvão está comemorando dois anos de namoro com a funcionária pública Meire Teodoro, de 56 anos:

— Basicamente, temos tempo de nos ver apenas nos fins de semana, pois cada um mora na sua casa. Estou vivendo um momento prazeroso e muito bom.

O que viram os primeiros turistas a entrar na Coreia do Norte após anos de fronteiras fechadas

Não insulte os líderes. Não insulte a ideologia. E não julgue.

Essas são as regras que os guias leem para os turistas ocidentais enquanto eles se preparam para cruzar a fronteira para a Coreia do Norte, sem dúvida o país mais fechado e repressivo do mundo.

Depois, há a informação prática: não há sinal de telefone, nem internet, nem caixas eletrônicos.

“Os norte-coreanos não são robôs. Eles têm opiniões, objetivos e senso de humor. E em nossos briefings, incentivamos as pessoas a ouvi-los e entendê-los”, diz Rowan Beard, diretor da Young Pioneer Tours, uma das duas empresas ocidentais que retomaram as excursões ao país na semana passada após um hiato de cinco anos.

A abertura teve vida curta, pois na quinta-feira (6/3) foi descoberto que o governo norte-coreano havia novamente suspendido a entrada de visitantes, sem motivo claro.

Rowan e um punhado de outros guias turísticos foram autorizados a retomar as operações

A primeira viagem em anos

A Coreia do Norte fechou suas fronteiras no início da pandemia, impedindo a entrada de diplomatas, trabalhadores humanitários e viajantes, e tornando quase impossível descobrir o que estava acontecendo por lá.

Desde então, o país se isolou ainda mais da maior parte do mundo, contando com o apoio da Rússia e da China. Muitos duvidavam que os ocidentais algum dia seriam autorizados a voltar.

Mas, depois de anos de solicitações e várias tentativas frustradas, Rowan e outros guias turísticos receberam luz verde para reiniciar as operações.

Em cinco horas, ele reuniu um grupo de viajantes ansiosos que não queriam perder a oportunidade. A maioria era de vloggers ou viciados em viagens, alguns queriam riscar o último país da lista, e não faltaram entusiastas da Coreia do Norte.

Os turistas, do Reino Unido, França, Alemanha e Austrália, cruzaram a fronteira da China para a remota área de Rason para uma viagem de quatro noites.

Turistas do Reino Unido, França, Alemanha e Austrália cruzaram a fronteira em uma viagem de quatro noites

Entre eles estava o youtuber britânico Mike O’Kennedy, de 28 anos. Embora já conhecesse a reputação do país, ele ficou chocado com o nível extremo de controle.

Como em todas as viagens à Coreia do Norte, os turistas foram acompanhados por guias locais, que seguiram um cronograma rigoroso e pré-aprovado.

A viagem incluiu visitas cuidadosamente coreografadas a uma cervejaria, uma escola e uma farmácia nova e totalmente equipada.

Uma cidade diferente

Ben Weston, um dos guias, comparou a visita à Coreia do Norte a “uma viagem escolar”. “Você não pode sair do hotel sem os guias”, disse ele.

“Algumas vezes eu até tive que dizer para eles usarem o banheiro. Nunca precisei fazer isso em lugar nenhum do mundo.”

Apesar da companhia constante, Mike conseguiu ver vislumbres da vida real: “Todo mundo estava trabalhando, não parecia que ninguém estava apenas relaxando. Foi um pouco desolador de ver.”

A caminho da escola, um grupo de crianças de oito anos fez uma dança ao som de animações de mísseis balísticos atingindo alvos.

Um vídeo da apresentação mostra meninas e meninos de gravatas vermelhas cantando enquanto explosões acontecem em uma tela atrás deles.

Mike viu um grupo de crianças de oito anos dançando ao som de animações de mísseis balísticos

Os turistas foram mantidos longe da capital, Pyongyang. Greg Vaczi, da Koryo Tours, a outra empresa de turismo autorizada a retornar, admite que os marcos mais emblemáticos de Pyongyang não estavam no itinerário.

Ele suspeita que as autoridades escolheram Rason como destino porque a área é relativamente isolada e fácil de controlar.

Criada como uma zona econômica especial para testar novas políticas financeiras, ela funciona como um pequeno enclave capitalista dentro de um estado socialista.

Empresários chineses administram empresas conjuntas com norte-coreanos e podem entrar e sair com relativa liberdade.

Joe Smith, um viajante norte-coreano experiente e ex-editor da plataforma NK News, focada na Coreia do Norte, esteve lá pela terceira vez: “Sinto que, quanto mais vezes você visita, menos você sabe. Cada vez que você vai, você dá uma espiadinha nos bastidores, o que te deixa com mais perguntas”, diz ele.

O momento de destaque para Joe foi uma visita surpresa e fora do horário normal a um mercado de artigos de luxo, onde as pessoas vendiam jeans e perfumes, além de bolsas Louis Vuitton falsas e máquinas de lavar japonesas, provavelmente importadas da China.

Neste local, os turistas não eram autorizados a tirar fotos, numa aparente tentativa de esconder essa bolha de consumismo do resto do país.

“Este era o único lugar onde as pessoas não nos esperavam”, diz Joe. “Parecia confuso e real – um lugar onde os norte-coreanos comuns vão. Eu adorei.”

Joe já visitou a Coreia do Norte três vezes

Medo da covid continua

Mas, de acordo com guias turísticos experientes, os movimentos do grupo eram mais restritos do que em viagens anteriores, com menos oportunidades de passear pelas ruas, ir a uma barbearia ou supermercado ou conversar com os moradores locais.

A covid foi frequentemente citada como um motivo, disse Greg da Koryo Tours: “Eles parecem ainda estar preocupados. Nossa bagagem foi desinfetada na fronteira, nossas temperaturas foram medidas e cerca de 50% das pessoas ainda usam máscaras.”

Greg não consegue determinar se o medo é genuíno ou uma desculpa para controlar as pessoas. Acredita-se que a covid tenha atingido duramente a Coreia do Norte, embora o impacto real seja difícil de quantificar.

Guias locais repetiram a versão do governo de que o vírus entrou no país em um balão enviado da Coreia do Sul e foi rapidamente erradicado em 90 dias.

Mas Rowan, que já esteve na Coreia do Norte mais de 100 vezes, sentiu que Rason foi afetado pelas duras regulamentações da covid. Muitas empresas chinesas fecharam, ela disse, e seus trabalhadores foram embora.

Até Joe, o viajante com experiência anterior na Coreia do Norte, comentou sobre o quão dilapidados os edifícios estavam.

“Os lugares estavam mal iluminados e não havia aquecimento, exceto nos nossos quartos de hotel”, disse ele, referindo-se a uma visita a uma galeria de arte fria, escura e deserta: “Parecia que eles tinham aberto as portas só para nós.”

Alguns turistas acharam que Rason, a área que visitaram, parecia dilapidada, com estradas ‘horríveis’ e prédios em ruínas

Fotos do regime podem fazer a Coreia do Norte parecer limpa e brilhante, explicou Joe, mas pessoalmente você percebe que “as estradas são horríveis, as calçadas são instáveis e os edifícios são construídos de forma estranha”.

Seu quarto de hotel era antigo e sujo, ele descreveu, lembrando “uma sala de estar de vó”. A janela estava quebrada.

“Eles tiveram cinco anos para consertar as coisas. Os norte-coreanos são muito cuidadosos com o que mostram aos turistas. Se isso é o melhor que eles podem mostrar, temo pensar no que mais existe por aí.”

A maior parte do país permanece escondida de olhares externos e acredita-se que mais de quatro em cada dez pessoas estejam desnutridas e precisem de ajuda.

Um país fechado

Joe disse que seu quarto de hotel parecia uma ‘sala de estar de vó’

Uma das poucas oportunidades que os turistas têm de interagir com os moradores locais na Coreia do Norte é por meio de seus guias, que às vezes falam inglês.

Nessas últimas viagens, eles estavam surpreendentemente bem informados, apesar da intensa máquina de propaganda do regime e do apagão de notícias.

Provavelmente é porque eles conversam com empresários chineses que vão e vêm, disse Greg.

Eles sabiam sobre as tarifas de Trump e a guerra na Ucrânia, e até mesmo que tropas norte-coreanas estavam envolvidas. Mas quando Joe mostrou uma foto da Síria, seu guia não sabia que o presidente Assad havia sido deposto.

“Expliquei-lhe cuidadosamente que, às vezes, quando as pessoas não gostam do seu líder, elas se rebelam e o forçam a sair, e ele não acreditou em mim no início.”

Essas conversas devem ser tratadas com delicadeza. Leis rigorosas impedem os norte-coreanos de falar livremente. Se muito for perguntado ou revelado, os turistas podem colocar em risco seu guia ou a si mesmos.

Mike disse que conversas com guias sobre política internacional devem ser conduzidas com cuidado

Mike admite que houve momentos em que isso o deixou nervoso. Em uma viagem à Casa da Amizade Rússia-Coreia do Norte, ele foi convidado a escrever no livro de visitas.

“Fiquei em branco e escrevi algo como ‘Desejo paz mundial’. Depois, meu guia me disse que não era apropriado escrever algo assim. Isso me deixou paranoico”, disse ele. “No geral, os guias fizeram um ótimo trabalho em nos fazer sentir seguros. Houve alguns momentos em que pensei: ‘Isso é estranho’.”

Para Greg, da Koryo Tours, essas interações trazem um propósito mais profundo ao turismo na Coreia do Norte: “Os norte-coreanos têm a chance de interagir com estrangeiros. Isso lhes permite ter novas ideias, o que, num país tão fechado, é muito importante.”

Mas o turismo na Coreia do Norte é controverso, especialmente porque os viajantes foram autorizados a retornar antes dos trabalhadores humanitários e da maioria dos diplomatas ocidentais.

Críticos, incluindo Joanna Hosaniak, da Aliança dos Cidadãos pelos Direitos Humanos na Coreia do Norte, argumentam que essas viagens beneficiam principalmente o regime.

“Isso não é como o turismo em outros países pobres, onde a população local se beneficia da renda extra. A grande maioria não sabe que esses turistas existem. O dinheiro deles vai para o Estado e, em última análise, para seus militares”, disse ela.

Uma conversa ficou na cabeça de Mike: durante sua ida à escola, ele ficou chocado quando uma garota, depois de conhecê-lo, disse que esperava visitar o Reino Unido um dia.

“Não tive coragem de dizer a ela que suas chances eram muito, muito pequenas”, ele admitiu.

Esta reportagem foi escrita e revisada por nossos jornalistas utilizando o auxílio de IA na tradução, como parte de um projeto piloto.

Lady Gaga: ‘Meu maior medo? Ficar sozinha’

Ninguém gosta de ficar sozinho. E não há trabalho mais isolado do que ser uma estrela do pop.

Pergunte a Lady Gaga.

Sua conquista da fama, em 2009/2010, foi algo que nunca tínhamos visto antes. Uma das primeiras estrelas do pop a aproveitar o poder da internet, ela parecia viver em uma permanente enxurrada de fotos nos tabloides e menções nos blogs de fofocas.

Lady Gaga tinha um apetite voraz. Ela fez uso de tantos sons e visuais diferentes no curto espaço de três anos que levou um crítico a escrever que ela estava “vivendo toda a carreira de Madonna de forma acelerada”.

Enquanto sua fama crescia, as manchetes ficavam cada vez mais ensandecidas.

Ela praticou um ritual satânico em um hotel de Londres! Ela escondia que é hermafrodita!! Ela planejou serrar a própria perna “por prazer”!!!

Em 2010, ela compareceu à cerimônia de entrega dos MTV Awards com um vestido feito totalmente de carne. Mas ninguém pareceu entender a brincadeira: Gaga se apresentou na forma de comida para os tabloides —– ela estava ali para ser consumida.

No palco, ela era objeto de adoração pelos seus fãs, os “Monstrinhos”. Mas qualquer pessoa que não seja megalomaníaca sabe que este tipo de adulação é uma ilusão distante.

“Estou sozinha, Brandon. Todas as noites”, contou Gaga ao seu cabeleireiro, no documentário de 2017, Gaga: Five Foot Two. “Depois de todo mundo me tocando o dia inteiro, falando comigo o dia todo, saio para o silêncio total.”

Agora com 38 anos e em um relacionamento feliz com o empresário da tecnologia Michael Polansky, Lady Gaga reconhece que aqueles anos de solidão a assustaram.

“Acho que meu maior medo era fazer isso sozinha — fazer a vida sozinha”, contou ela à BBC. “E acho que o melhor presente foi conhecer meu parceiro, Michael, e ficar no caos com ele.”

Lady Gaga e Michael Polansky estão juntos desde 2020; na foto, em Veneza em 2014

O casal está junto desde 2020 e revelou o compromisso no Festival de Cinema de Veneza, na Itália, no último mês de setembro — quando Gaga usou seu milionário anel de noivado em público pela primeira vez.

Vista pessoalmente, a aliança é deslumbrante: um anel pavê com um enorme diamante oval aplicado sobre um conjunto de diamantes brancos, rosa e ouro de 18 quilates.

Mas, na outra mão, Gaga ostenta outro anel, menor e mais modesto, com algumas folhas de grama presas em resina. E este, sim, é o anel realmente especial.

“Na verdade, Michael me pediu em casamento com estas folhas de grama”, ela conta.

“Muito tempo atrás, nós estávamos no jardim e ele perguntou: ‘Se, algum dia, eu pedir você em casamento, como devo fazer?’ Eu respondi simplesmente: ‘Pegue apenas uma folha de grama do jardim e enrole no meu dedo, irá me fazer muito feliz.'”

Conceito de arte do novo disco de Lady Gaga tem roupas é uma montagem de fotos com roupas pretas

O gesto foi profundamente romântico, mas marcado pela tristeza. O jardim de Gaga em Malibu, no Estado americano da Califórnia, havia recebido o casamento de sua amiga próxima, Sonja Durham, que morreu de câncer pouco tempo depois, em 2017.

“Era tanta perda, mas aquele momento feliz estava acontecendo comigo”, relembra ela, sobre o pedido de Polansky. “Ficar noiva aos 38 anos… estava pensando no que foi preciso acontecer até chegar aquele momento.”

Estes sentimentos acabaram inspirando uma canção do seu novo álbum, Mayhem. Ela se chama – é claro – Blade of Grass (“Folha de grama”, em inglês). Nela, a estrela conta a história de um “beijo de amor em um jardim feito de espinhos” e a promessa de amor em um tempo sombrio.

Gaga chama a canção de “agradecimento” ao seu parceiro. E os fãs talvez tenham também uma razão para agradecer a ele.

Mayhem marca o retorno de Gaga ao pop, a todo vapor, depois de passar um período preocupada com sua carreira cinematográfica e álbuns secundários, explorando o jazz e clássicos norte-americanos.

Em entrevista à revista Vogue no ano passado, a cantora revelou que seu noivo foi o responsável por impulsioná-la nesta direção. “Ele disse, ‘querida, eu te amo. Você precisa fazer música pop.'”, ela conta.

“Na turnê Chromatica, vi nela uma chama”, destacou Polansky. “Eu queria ajudá-la a manter essa chama viva todo o tempo e simplesmente começar a fazer músicas que a deixassem feliz.”

A estrela vivia assediada por paparazzi no início da carreira

‘Canção mais revoltada’

Com esta abordagem, o álbum volta ao surpreendente som dos primeiros sucessos de Gaga, como Poker Face, Just Dance e Born This Way.

No último single, Abracadabra, ela chega a revisitar os sons quase incompreensíveis da música Bad Romance (2009). Mas, desta vez, há uma referência à morte — ela canta “morta-ooh-Gaga”, em vez do “roma-ma-ma” da canção original.

Na arte do álbum, seu rosto é refletido em um espelho quebrado. Nos vídeos, ela enfrenta versões anteriores de si própria.

Existe a sensação esmagadora de que Stefani Germanotta, a artista por trás de Lady Gaga, está examinando a personalidade que ela criou para si própria no palco.

Tudo isso vem à mente com uma faixa chamada Perfect Celebrity. A letra diz: “Eu me tornei um ser famoso” — um verso que extrai toda a sua humanidade, como o vestido de carne de 2010.

A cantora surpreendeu os fãs na França com prévias de sua nova música no verão passado

“Provavelmente, esta é a canção mais revoltada que já escrevi sobre a fama”, afirma ela.

“Eu havia criado esta pessoa pública, na qual eu estava me transformando de todas as formas — e mantendo a dualidade de que era realmente um desafio saber onde eu começo e Lady Gaga termina. Isso meio que me derrubou.”

Mas como ela conseguiu reconciliar o lado público e privado da sua vida?

“Acho que o que realmente percebi é que é mais saudável não ter uma linha divisória e integrar as duas coisas em um único ser humano”, ela conta. “O mais saudável para mim foi saber que sou uma artista e que viver uma vida artística foi minha escolha.”

“Adoro compor músicas. Adoro fazer música, os ensaios, a coreografia, a produção no palco, as roupas, a iluminação e a montagem de um show.”

“É isso que significa ser Lady Gaga. É a artista por trás de tudo”, explica ela.

A nova música de Gaga é um retorno ao Europop maximalista e agitado de seus primeiros dias

Em entrevistas anteriores, a artista contou como se dissociava de Lady Gaga. Ela acreditou, por algum tempo, que a personagem era responsável por todo o seu sucesso e que ela não havia contribuído com nada.

Mayhem marca o momento em que Germanotta reivindica a propriedade da sua música, não só de “Lady Gaga”, mas de outros produtores e compositores em órbita dela.

“Quando eu era mais jovem, as pessoas tentavam receber o crédito pelo meu som ou pela minha imagem, [mas] todas as minhas referências, toda a minha imaginação sobre o que poderia ser a música pop, vieram de mim”, relembra Gaga.

“Por isso, eu realmente quis revisitar minhas primeiras inspirações, minha carreira e tomar posse dela como minha invenção, de uma vez por todas.”

Desde o começo, ficou óbvio que Lady Gaga estava animada com esta nova fase.

Depois de se apresentar na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, ela saiu para as ruas da capital francesa, tocando versões iniciais de demonstração da sua nova música para os fãs que se reuniram no lado de fora do seu hotel.

Foi uma decisão tomada de impulso naquele momento, mas serviu para marcar mais uma tentativa de restaurar a espontaneidade do seu início de carreira.

“Eu fiz isso por quase 20 anos, eu tocava minhas músicas para os fãs muito antes que elas saíssem”, ela conta. “Depois dos meus shows, eu costumava convidar meus fãs para os camarins, nós nos reuníamos e eu tocava gravações de demonstração para eles, para ver o que eles achavam das músicas.”

“Você com certeza pode imaginar que, depois de 20 anos, você não espera que as pessoas ainda apareçam para ouvir suas músicas e fiquem animadas por verem você. Por isso, eu apenas quis compartilhar aquilo com eles, porque eu estava animada por eles estarem ali.”

Para mim, como entrevistador, este também é um momento de fechamento de ciclo. Eu havia entrevistado Lady Gaga pela última vez em 2009, quando Just Dance chegou ao primeiro lugar nas paradas no Reino Unido.

Na época, ela estava eufórica. Gaga conversou entusiasmada sobre sua paixão por John Lennon. Ela se declarou “viciada” em chá inglês e prometeu me mandar por email uma versão em MP3 de Blueberry Kisses, uma música não lançada que conta, de forma brilhante, como é fazer sexo com hálito cheirando a café aromatizado com mirtilo.

Ao longo dos anos, tenho visto suas entrevistas se tornarem mais reservadas. Ela veste roupas exorbitantes ou usa óculos de sol pretos, colocando deliberadamente uma barreira entre ela e os jornalistas.

Mas a Lady Gaga que encontrei em Nova York, nos Estados Unidos, é a mesma com quem conversei 16 anos atrás — confortável consigo mesma e transbordando de entusiasmo. Ela afirma que esta naturalidade veio porque ela “cresceu e vive uma vida plena”.

“Estar presente para os meus amigos, para minha família, conhecer meu incrível noivo — tudo isso me fez uma pessoa completa e o mais importante não é minha personalidade no palco.”

Com ar definitivo, ela destaca: “Eu queria que Mayhem tivesse um final. Queria que o caos desaparecesse.”

“Eu me afastei do ícone. O álbum termina com amor.”

Defesa de Bolsonaro pede anulação da delação do Cid e julgamento da denúncia da trama golpista no plenário do STF

O ex-presidente Jair Bolsonaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira sua defesa à acusação feita pela Procuradoria-Geral da República de participação na trama golpista que tentou impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a vitória na eleição de 2022. Os advogados afirmam que o ex-presidente é inocente e que não compactuou com qualquer tentativa de ruptura democrática.

No pedido, a defesa de Bolsonaro pede que a delação de Mauro Cid – umas das peças centrais da denúncia da PGR – seja anulada por “ausência de voluntariedade”. Segundo os advogados de Bolsonaro, o ex-ajudante de ordens teria sido pressionado e mudou de versão sobre os fatos narrados em sua delação.

“Verificou-se, então, tratar-se de colaboração premiada viciada pela absoluta falta de voluntariedade e de uma colaboração marcada pelas mentiras, omissões e contradições”, afirmam.

De acordo com a acusação, Bolsonaro cometeu os crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado, tentativa de abolição do estado democrático de direito, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

A PGR denunciou o ex-ministro Braga Netto e mais 32 pessoas por participação em uma trama golpista para mantê-lo no poder após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022. A denúncia foi oferecida pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e será apreciada pela Primeira Turma da Corte. Caso a acusação seja aceita, Bolsonaro vai vai virar réu, e a ação penal terá início na Corte.

Por que Bolsonaro foi denunciado pela PGR?

Segundo a PGR, Bolsonaro ‘liderou’ organização criminosa que tentou golpe de Estado.

“A responsabilidade pelos atos lesivos à ordem democrática recai sobre organização criminosa liderada por Jair Messias Bolsonaro, baseada em projeto autoritário de poder”, escreveu Gonet, na denúncia.

De acordo com a PGR, a suposta organização criminosa estava “enraizada na própria estrutura do Estado” e tinha “forte influência de setores militares”.

Investigação

Em novembro de 2024, Bolsonaro e outras 39 pessoas haviam sido indiciadas pela Polícia Federal. Ao formalizar a acusação, a PGR não denunciou todos os nomes apontados pela PF. O ex-presidente nega as acusações.

— Você já viu a minuta do golpe? Não viu. Viu a delação do Mauro Cid? Não viu. A frase mais emblemática, tem uns 30 dias mais ou menos, um amigo que deixei em Israel falou o seguinte: “Que golpe é esse que o Mossad não estava sabendo?” Nenhuma preocupação com essa denúncia, zero — disse Bolsonaro nesta tarde em visita ao Senado.

A investigação lista provas que, para a PGR, comprovam que ele analisou e pediu alterações no texto de uma minuta golpista. Entre as propostas aventadas nesse texto estava a possibilidade de prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Conforme as apurações, Bolsonaro pediu para retirar os nomes de Gilmar e Pacheco da minuta.

A prisão das autoridades faria parte de um plano para interferir nas eleições de 2022 e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, na visão de Bolsonaro, teria tomado decisões “inconstitucionais” em desfavor dele. Neste contexto, as Forças Armadas seriam acionadas e agiriam como um “poder moderador”, com o objetivo de reverter o resultado eleitoral.

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Conforme a investigação, Bolsonaro e seus auxiliares atuaram para disseminar notícias falsas e descredibilizar o processo eleitoral brasileiro, com o intuito de criar um ambiente favorável para uma intervenção militar. Fazia parte dessa iniciativa a reunião que ele convocou com embaixadores para fazer ataques ao sistema de votação brasileiro — o caso acabou o levando a ser condenado pelo TSE por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

A organização se daria na junção de mais de três pessoas, em grupo organizado, “de forma estruturada e com divisão de tarefas, valendo-se de violência, intimidação, corrupção, fraude ou de outros meios assemelhados, para o fim de cometer crime”. Segundo a Polícia Federal, a trama golpista envolveu a participação de militares, assessores e ministros do governo Bolsonaro.

Um ponto chave da articulação golpista teria, conforme a PF, ocorrido durante uma reunião ministerial em julho de 2022. O encontro foi gravado pelo tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. No encontro, o ex-presidente diz a seus ministros que “os caras estão preparando tudo para Lula ganhar no primeiro turno” e que seria preciso “fazer alguma coisa antes” do pleito. No entendimento dele, “se a gente reagir depois das eleições”, o Brasil viraria um “caos” e “uma grande guerrilha”.

Um dos elementos obtidos pela investigação foi a confirmação de um encontro entre Bolsonaro e os então comandantes das Forças Armadas em dezembro de 2022 no qual foram apresentadas ações que possibilitariam um golpe. O ex-comandante do Exército Freire Gomes disse em depoimento à PF que, no encontro, Bolsonaro detalhou a possibilidade de “utilização de institutos jurídicos” como Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Estado de Defesa ou Estado de Sítio para impedir a posse de Lula.

Segundo Gomes, ele e o ex-comandante da Aeronáutica Baptista Junior adotaram uma postura contra a proposta, enquanto o comandante da Marinha, Almir Garnier Santos, “teria se colocado à disposição do presidente da República”. Conforme Baptista Junior, Freire Gomes chegou a ameaçar Bolsonaro de prisão, caso o então presidente prosseguisse com o plano de golpe de Estado.

Veja a lista dos denunciados pela PGR

Quais são os próximos passos da denúncia da PGR contra Bolsonaro?

A denúncia é a acusação formal contra Bolsonaro e seus aliados, após a análise dos indícios levantados pela Polícia Federal. O caso tem como relator o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela próxima etapa do processo: dar prazo de 15 dias para que as partes se manifestem.

Em seguida, a Primeira Turma do STF decide se a denúncia da PGR será recebida ou rejeitada. Fazem parte do colegiado, além do relator, Alexandre de Moraes, os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Caso os ministros entendam que há indícios do cometimento de crime, a denúncia será recebida, e o ex-presidente se torna réu.

Só então, inicia-se a fase de instrução do processo, em que são colhidas as provas: as partes são ouvidas, pode haver solicitação de diligências e perícias, bem como pedidos de nulidade.

Uma vez encerrada a instrução do caso, é Moraes, na condição de relator, que deverá elabora o voto. Não há prazo para que essa análise seja feita e o julgamento só ocorre após a apresentação do relatório.

A expectativa no STF, contudo, é que o julgamento seja concluído até o fim do ano, evitando que o caso siga para 2026, ano eleitoral.

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